POLÍTICA BRASILEIRA EM ALTA TENSÃO

Costuma-se dizer que no Brasil ninguém morre de tédio. A cada semana um vendaval político atinge o país. Faz tempo que a sociedade é agitada por forças que se opõem e identificam o outro como inimigo político que precisa ser destruído.

A divergência faz parte do mundo político, mas desde a eleição de 2014, quando Dilma Rousseff e Aécio Neves protagonizaram uma das mais disputadas eleições da história recente do país, a polarização envolveu a maioria dos atores políticos e continua a dividir a sociedade em grupos radicalmente antagônicos.

Desde 2018 a disputa tem como atores principais o Partido dos Trabalhadores, com Lula à frente, e o que se convencionou chamar de “bolsonarismo”, liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que reúne a maior parte da direita mais radicalizada e conservadora do Brasil.

A partir de 2014, o Poder Executivo se enfraqueceu, o Legislativo se fortaleceu, e o Judiciário se colocou como árbitro da cena política brasileira, funcionando como uma espécie de Poder Moderador que dá a última palavra e influencia o jogo político.

Foi pela ação do Judiciário que candidatos foram condenados, cassados e reabilitados como se fosse uma “montanha-russa” criadora de situações inusitadas. A Corte Suprema do país hoje não tem a confiança de boa parte dos cidadãos que a veem politizada e agindo de forma muito discricionária, ao contrário do que deveria ser a atuação de magistrados.

Nos últimos dias o país foi sacudido com a notícia da taxação em 50% dos produtos brasileiros que entram nos EUA, medida decretada pelo presidente Donald Trump, e que foi saudada por forças políticas ligadas ao bolsonarismo. O deputado federal Eduardo Bolsonaro há alguns meses deixou o Brasil e foi para os EUA fazer pressão por sanções contra o STF e, especificamente, contra o ministro Alexandre de Moraes.

Trump deixou claro que sua ação era motivada politicamente, pois defendeu Jair Bolsonaro, acusou o STF e o ministro Alexandre de Moraes de perseguição e atuação contra a liberdade de imprensa. Ao mesmo tempo, acusou o governo Lula de agir contra a economia norte-americana e contra as “big techs” (Google, Meta, X).

A ação declarada de Trump em favor de Bolsonaro não pegou bem e foi vista como intromissão indevida dos EUA nos negócios internos do Brasil, ferindo a sua soberania. Mesmo setores da economia brasileira simpáticos ao bolsonarismo, como o agronegócio, ficaram contrariados, pois o aumento de impostos prejudica as exportações brasileiras.

O governo Lula, que estava acuado e com baixa popularidade em razão dos inúmeros desacertos políticos e econômicos, viu uma chance de reagir e levantou a bandeira do patriotismo e nacionalismo contra a interferência de Trump e contra o bolsonarismo. Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo foram pintados como traidores do Brasil.

A medida foi um revés para o bolsonarismo que se viu acusado de tramar contra os interesses brasileiros. Na verdade, é o jogo da política em ação. Não conta muito o real interesse do Brasil, mas o dos grupos que estão ou estiveram no poder. O Partido dos Trabalhadores joga com sua postura tradicionalmente divisionista do “nós contra eles”, agravada pelo fato de o governo Lula mostrar voracidade na cobrança de impostos e de não ter compromisso com a responsabilidade fiscal, que já jogou o país na grave crise econômica da era Dilma Rousseff. O seu interesse principal é recuperar a popularidade e ganhar a eleição de 2026.

Por outro lado, Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo deixam claro que o projeto que acalentam tem muito de pessoal e familiar. E isso os cega, assim como aos seus seguidores mais fiéis. Bolsonaro perdeu a eleição de 2022 por sua própria culpa, em razão de erros graves cometidos ao longo do mandato e, sobretudo, nas últimas semanas do segundo turno.

O Brasil precisa se livrar dessa polarização tóxica que tanto mal já lhe causou. Na verdade, a sociedade precisa reagir e se defender diante de políticos e agentes públicos inebriados pelo poder, capazes de tudo para benefício próprio ou do seu grupo. Democracia necessita de cidadãos vigilantes e participativos, que não aderem cegamente a ninguém. É preciso apoiar quem se dispõe a trabalhar pela sociedade e cuidar para que a vida de todos melhore. Este é um projeto muito distante, mas digno dos que têm boa vontade.

                            Isaías Pascoal, doutor em Ciências Sociais

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