Contradições de tanto conhecimento e ignorância no mesmo Brasil
Ao pensar em fevereiro para escrever o editorial do mês, impossível não me questionar sobre como pode caber numa mesma sociedade tanto avanço e tanto retrocesso, simultaneamente? Tanto conhecimento e tanta ignorância? Sim, porque numa mesma sociedade onde mulheres descobrem a cura para problemas tão complexos de saúde, elas ainda sofram com tanto preconceito e ignorância, é algo no mínimo contraditório e estarrecedor!
Para exemplificar o primeiro grupo, me refiro à brilhante e humilde pesquisadora da UFRJ, Tatiana Sampaio, que pode ter descoberto, pelo menos, como eficientemente já comprovado em no mínimo 8 de seus pacientes, a cura da lesão modular causada por traumas. Em pacientes que haviam perdido os movimentos, esta devota pesquisadora os regenerou após injetar neles a poliaminina (ou orientar a ação de outros profissionais a o fazerem). A proteína da placenta permite o desenvolvimento do axônio, (a parte final dos neurônios que são responsáveis por transmitir os comandos do cérebro às partes do corpo, para moverem-se e que após os traumas, ficavam “desligados”, resumindo o processo de modo bem grosseiro). Pensem que avanço na medicina mundial!
Em contraponto com tamanho avanço vindo da inteligência e dedicação de uma mulher que, incrivelmente, tem usufruído de um reconhecimento à altura de seu feito, vimos uma outra mulher, que viveu a maior dor que um ser humano pode passar, ser massacrada pela sociedade. Depois de perder os dois filhos assassinados, e ainda, que “pode” ter sido por aquele a quem dele descendiam e por quem deveria os defender: o próprio pai. Um caso que aconteceu em Itumbiara, (GO). Digo “pode” pois, foi a primeira vez que vi um caso ser tão rapidamente investigado, analisado e julgado. Em poucas horas, a “sociedade” já tinha decretado se tratar do assassinato de dois menores e depois de autoextermínio do homicida causado por motivos passionais. Um caso raro onde a carta supostamente escrita pelo autor dos disparos, que matou dois inocentes, virar prova cabal de um crime chocante e absurdamente cruel. Falo aqui em suposições pois, mesmo não sendo conhecedora profunda de leis, não concordei com a rapidez com que foi divulgada tal atrocidade e autoria, sem a famosa presunção de inocência, atribuída a todo e qualquer cidadão, vivo ou morto, no sistema judiciário brasileiro, até que se concluam as investigações que, geralmente, levam semanas, até meses, para serem concluídas. Mas, enfim, essa é uma outra questão. Não menos importante, mas à qual não vou me ater nesta reflexão.
O que me chamou a atenção foi a pressa também absurda com a qual muita gente, e muitas mulheres, inclusive, justificou tal barbárie, como se isso fosse possível. Devido ao fato do marido ter tirado a vida dos filhos e dele próprio em razão de uma suposta traição da mãe das crianças e esposa dele. Como pode haver motivos que justifiquem tal atrocidade, mesmo que a traição fosse verdadeira? Se assim o fosse, nossa civilização estaria fadada à extinção com a eliminação de muitos descendentes, uma vez que as traições dos “maridos homens” já fossem automaticamente expurgadas com a morte de seus filhos. Isso porque a traição de homens é algo quase patológico em nossa sociedade. E julgada de uma outra forma.
Agora, me pergunto e a você que lê esta reflexão: Onde está o senso de humanidade de uma sociedade que é capaz de afirmar que uma mãe mereça tal dor por ter se envolvido num caso extraconjugal? Será que esse julgamento é tão feroz quando se refere a uma traição do homem? Quando esse julgamento parte de homens, não há muita diferença do que vimos há séculos em nosso pobre país, que não deveria ter sido descoberto. Mas, vir de mulheres que se dizem modernas, lutadoras por direitos e igualdades, é algo bem contraditório.
Ainda fazendo comparações com realidades tão distintas a mulheres num mesmo Brasil, o que dizer de uma menina de 12 anos cujo estuprador foi considerado como inocente, por desembargadores do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, sob a alegação de que a “causadora” do estupro, se é que assim podemos chamar, mantinha uma relação consensual com seu abusador e que já tinha tido relações sexuais com outros homens, antes do tal acusado de 35 anos, que comprava a família da vítima com bens? Que país acolhe esta menina tão jovem? Que senso de justiça essa criança terá para o grande resto de sua vida que começa com tamanha crueldade?
Basta de pseudomoralismo, de falsas cristãs ou cristãos que vivem com pedras na mão pra apedrejar a tudo e a todos. Desde que não seja em seus próprios terreiros. Não olham os próprios narizes, pra não dizer outra parte do corpo, e espumam os cantos da boca em tanto julgar e condenar a outra. Uma lástima!
Será que até mesmo os ditos animais não defendem suas crias, principalmente, seus idosos, suas fêmeas e crianças por saberem que estão sempre diante dos mesmos desafios?
Como pode uma mesma sociedade que tem mentes tão brilhantes, capazes de concorrerem, provavelmente, e com muita justiça, diga-se de passagem, a prêmios nobel de ciência, ou de medicina, abrigarem tanta bizarrice, tanto julgamento e crueldade?
Contradições de tanto conhecimento e tanta ignorância no mesmo patamar, envolvendo o mesmo gênero e no mesmo Brasil.





