EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRÍTICO

Em 2016, o Dicionário Oxford elegeu “pós-verdade” como palavra do ano. Desde então, as “fake news” se tornaram endêmicas, propagadas nas redes sociais. O avanço exponencial das tecnologias colocou à disposição da humanidade possibilidades inauditas. Yuval Harari, em seu livro “Homo Deus”, afirma que características que antes eram atribuídas às divindades estão hoje sob controle humano. O admirável mundo novo  comporta, no entanto, uma enorme possibilidade de manipulação e autodestruição. Na era da informação e da geração incessante de conhecimento, proliferam também a desinformação, os “terraplanismos” bizarros e uma espécie de credulidade no grupo, na tribo e no líder, que são amplificados pelas redes sociais e por instituições ligadas à comunicação, cujo engajamento político e ideológico muitas vezes é indisfarçável.

Em tempos de polarização ideológica exacerbada, como o atual, há imensa dificuldade em ouvir e analisar o que os outros têm a dizer. Envolvidas em bolhas e inseridas em tribos, as pessoas aceitam ideias que confirmam suas preferências. Leituras, notícias, programas e podcasts são utilizados com viés de confirmação. Sair desse círculo se tornou quase impossível, pois “o homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade”, como afirmava o filósofo Francis Bacon no livro “Novum Organum”.

Por isso, pensar criticamente tornou-se vital para não ser tragado pela credulidade, pelo pensamento coletivo dominante e pelas fake news. Embora difícil, o desafio do juízo crítico é possível e urgente. O caminho pode ser encontrado num trecho memorável do livro Discurso do Método, de 1637, do filósofo René Descartes: “Eu sempre tive um imenso e intenso desejo de aprender a distinguir o verdadeiro do falso, para ver claro nas minhas ações e caminhar com segurança nesta vida. Aprendi a não crer demasiado em nada do que me fora inculcado só pelo exemplo e pelo costume; e, assim, pouco a pouco, livrei-me de muitos erros que podem ofuscar a nossa luz natural e nos tornar menos capazes de ouvir a razão”. O que Descartes está propondo é a dúvida como atitude e a busca por evidências para fundamentar conclusões.

São habilidades que precisam ser trabalhadas de forma consciente e programática nas escolas desde cedo. Mas não só nas escolas. Pais, veículos de comunicação e outras instituições sociais também podem contribuir. Para isso, é necessário treino, pois a mente é hábil em criar firulas e em se deixar envolver por sentimentos e lógica simples. As emoções, a tradição e os hábitos são mais eficazes para estabelecer o que é aceito como verdadeiro. Mesmo pessoas maduras cometem com frequência erros grotescos. Como pôde a mente brilhante de Martin Heidegger flertar com o nazismo, ou Jean-Paul Sartre ficar por tanto tempo enfeitiçado pelo totalitarismo stalinista?

A competência de pensar criticamente não é natural. Precisa ser desenvolvida para funcionar. As questões a serem enfrentadas são: o que é pensar criticamente e como tornar isso um hábito. A importância desse desafio é tamanha que, por longo tempo, foi a preocupação dominante de diversos filósofos situados em campos opostos. De Sócrates, Platão e Aristóteles, lá atrás, às mais recentes tentativas pós-modernas de desconstrução de metanarrativas com as críticas que suscitaram.

Haverá um método infalível para conhecer os fenômenos humanos e naturais?

Karl Popper sempre citava uma frase do filósofo grego Xenófanes para demonstrar a falibilidade do conhecimento humano: “Não revelam os deuses, desde o começo, todas as coisas aos mortais, mas ao longo do tempo, pela busca, eles podem chegar a conhecer melhor as coisas”. Ele indicava que a ciência procura explicar a realidade por meio de conjecturas que devem ser testadas continuamente.

A veracidade de uma conjectura, no entanto, não garante a sua aceitação. A psiquê humana é suscetível a estímulos que resistem às demonstrações matemáticas e à lógica científica. É poderoso o apego humano a pressupostos morais, religiosos e culturais. Por isso mesmo, é imperativo para quem atua no campo educacional habituar os alunos a analisar, a controlar conscientemente os preconceitos e pré-conceitos, a aprender a valorizar os dados da realidade e a cotejar teorias e autores com diferentes pontos de vista. Um programa de ensino baseado em uma teoria ou em um autor específico é unidimensional e favorece o estreitamento de perspectivas.

Onde faltam esses elementos, os demônios (ilusões) assombram, afirmou Carl Sagan no livro “O mundo assombrado pelos demônios”. É necessário equipar os alunos com competências cognitivas que os habilitem ao exercício do pensamento crítico. Elas só serão construídas com experiência e treinamento, um projeto que desafia as instituições educacionais a serviço do esclarecimento. Segundo Immanuel Kant, essa é a única forma de sair da menoridade e alcançar a emancipação.

Isaías Pascoal – Doutor em Ciências Sociais

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