QUARENTA E UM ANOS DEPOIS: de volta à República Velha

Em março de 1985, teve início o que se convencionou chamar de “Nova República” no Brasil, com o fim do regime militar e a chegada ao poder de Tancredo e Sarney. Tancredo morreu um dia antes, mas Sarney assumiu, capitaneado por Ulisses Guimarães, o mais importante político daquele momento, e pelo PMDB, sustentáculo do novo regime.

Quarenta e um anos depois, em 2026, o que resta desse novo regime ou da “Nova República”? Sugestão minha: vamos tirar o “novo” e a “Nova”. Sobram as palavras regime e república, ocas, carcomidas, desidratadas, apodrecidas. Nunca entendi tanto de República Velha (1889-1930), apesar de estudá-la nos livros, como agora. Mudaram as personagens, a roupagem, os figurinos, o perfil demográfico, o padrão econômico, o perfil de escolaridade, ampliou o contingente de votantes e o país se modernizou em alguns setores. Mas na essência, a seiva que corre nas veias, continua muito semelhante à daquela época.

Naquele tempo vigiam o coronelismo, a política dos governadores, os acordos entre grupos, a decisão dos candidatos em pactos elaborados pelos grandões e a tosquia do Estado e da sociedade. Era impossível à oposição ganhar uma eleição. A vitória dela só era pensada por meio da revolução, de uma sedição ou insurreição militar (caso do Tenentismo). Ao povo restava obedecer, colocar-se sob a proteção de um coronel e esperar pela retribuição em forma de favor. Outra maneira de protestar só com a rebelião armada: Canudos, Contestado, Cangaço. E pensar que o estopim de Canudos foi a decretação de novo imposto que os seguidores do Conselheiro se recusaram a pagar!

A novidade de hoje é que no núcleo do mal-estar atual está o principal tribunal de justiça do país: o STF, gerador de crises contínuas. Seus ministros estão metidos em confusões diversas e se parecem mais com delegado de polícia, comentador político, senador da república, negociante ou Luís XIV reencarnado. No conjunto, desfiguraram o que é conveniente a uma Corte Suprema. Ali não há sábios, poucos são comedidos e prudentes, a maior parte é recheada de vaidade e gosto pelo mando. São os novos mandões da Nova República envelhecida.

Como naquela época, boa parte da sociedade assiste ao desmazelo passivamente, desde que o seu lado esteja no poder. Aí pode tudo. Não interessa o bem da coisa: a República, o Estado velados pelo sentimento de cidadania autêntica. Os novos coronéis se refestelam no poder e distribuem o botim com os aliados de sempre, incluindo o povo que os apoia, incapaz de crítica e discernimento. Desde que o outro lado não chegue lá… Enquanto isso, o trem da história vai passando e sobram as imagens amareladas do atraso e do velho sempre rejuvenescidas por um banho de modernidade. O que não muda: clientelismo, favorecimento de amigos e apoiadores, o escambo, os discursos travestidos de moralismo e virtuosismo que condenam o outro sem se olhar no espelho, o sempre atual pão-e-circo, o atraso e o fedor!

Vale muito a leitura dos livros de Lima Barreto, escritor que retratou as entranhas do poder nos primeiros decênios da república.Tudo se dissolve na rede de influências e interesses pessoais. Há eleições, mas elas mudam quase nada.

“Tenho, pesar de mim, uns longes de patriotismo e, quando vejo que aquilo, o Lírico, a condensação da fina flor, é a mesma coisa de há quarenta anos passados, fico abatido. São os mesmos fazendeiros sugadores de sangue humano; são os mesmos políticos sem ideias; são os mesmos sábios decoradores de compêndios estrangeiros e sem uma ideia própria; são os mesmos literatos a Octaviano, literatos de coisas de cottillon, os mesmos agiotas…Há quarenta anos era assim; não mudou. Serão sempre assim?” (Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, Lima Barreto)

Só uma força pode mudar isso: uma sociedade atenta e mobilizada contra os abusadores. Mas isso ainda parece uma miragem. Ela, que em novembro de 1889, “assistiu bestializada à proclamação da república” (Aristides Lobo), pelo jeito, continua na mesma condição.

Isaías Pascoal – Doutor em Ciências Sociais

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