A Encíclica do Papa Leão XIV: a inteligência artificial e o ser humano

No dia 15 de maio, o Papa Leão XIV publicou a encíclica Magnifica Humanitas, que reflete sobre a doutrina social da Igreja no contexto da revolução tecnológica atual marcada pelo avanço espetacular da inteligência artificial. Como qualquer tecnologia, ela é uma ferramenta, produto do gênio humano e capaz de prestar serviços à humanidade como nunca se pensou antes, embora, na mesma medida, a ameace.

O Papa passa rapidamente pela “doutrina social da Igreja”, inaugurada por Leão XIII em 1891, com a encíclica Rerum Novarum. Relaciona as contribuições dos principais papas que se dedicaram à questão: Pio XI com a Quadragésimo Ano, diversos escritos mais fragmentados de Pio XII, João XXIII com Mater et Magistra e Pacem in Terris, Paulo VI com a Populorum Progressio, João Paulo II com a Centésimo Ano (100 anos da Rerum Novarum), diversos escritos de Bento XVI e Francisco com a Dilexit nos, Fratelli Tutti e Laudato si, amplamente citadas no documento de Leão XIV.

O centro da encíclica é a questão social numa era de revolução tecnológica inaudita como a da Inteligência Artificial (IA). O Papa reflete amplamente sobre o seu significado e  os perigos que ela pode trazer à humanidade. Ele não é contra a tecnologia, mas aponta para o potencial destrutivo nela embutido: quem a controla, normas éticas, poder dos algoritmos, realidade artificial, usos indevidos (guerra, pornografia), perda de atributos autenticamente humanos (pensamento, emoção, relacionamento), destruição de trabalhos que, no conjunto, representam um desafio para todos, sobretudo para quem detém postos de liderança na sociedade.

Ele indica inúmeras ações capazes de enfrentar a nova realidade: necessidade de normatização, papel dos Estados, controle dos algoritmos, ética na programação das IAs, preservação do trabalho, garantia de renda básica que permita dignidade a quem está fragilizado, responsabilidade das famílias e das escolas para um tipo de educação que prepare melhor crianças e jovens e pela dedicação a atividades com alto potencial de humanização (encontros, conversas, presença real).

Acima de tudo, deve ser preservada a dignidade da pessoa humana. Pois o homem está acima de tudo. Ele foi criado à imagem e semelhança de Deus, revelado plenamente por e em Jesus Cristo, o Deus que se fez homem e com ele conviveu. Esse tesouro deve ser resguardado como inegociável. Tudo o que atenta contra a dignidade do homem não é aceitável.

A encíclica do Papa coloca na ordem do dia um assunto que não pode mais ser negligenciado: o impacto da tecnologia, sobretudo da inovação sobre a qual reflete. Como dizia o historiador israelense, Yuval Harari, no livro Homo Deus, estamos vivendo uma era em que atributos antes próprios da divindade (criação) estão sob controle humano. Da Engenharia Genética à Inteligência Artificial, o homem adquiriu um poder que as gerações mais antigas teriam dificuldade em reconhecer.

Isso tudo lembra muito a narração bíblica, no livro do Gênesis, da criação do Ser Humano e do convite a dominar o mundo. Pelo visto, historicamente, o homem cumpriu o que Deus esperava dele. A capacidade humana foi tamanha que a única restrição  imposta a Adão e Eva (não comer do fruto da árvore do bem e do mal) foi desobedecida, pois eram dotados de livre-arbítrio. Desde o início, a humanidade produziu conhecimentos e artefatos que garantiram o seu poder sobre a natureza e sobre os adversários ao longo do tempo.

Os gregos também acreditavam numa narrativa, bastante conhecida hoje, para explicar a mesma questão do homem e de suas possibilidades. É o mito de Prometeu, amigo do homem, que atirou sobre ele o fogo sagrado de Zeus, dando-lhe inteligência e poder criativo. Prometeu foi condenado por Zeus (foi acorrentado, com o fígado exposto, devorado por aves). Ele é o patrono da humanidade na versão grega.

Assim como na versão judaico-cristã, a desobediência de Prometeu também  trouxe o sofrimento. Zeus se vingou: enviou Pandora, que, com sua caixa misteriosa, enganou Epimeteu, irmão de Prometeu. De forma imprudente, ele abriu a caixa e deixou escapar toda sorte de dor que aflige a humanidade. Só restou a esperança. Em ambas as versões (grega e judaico-cristã), a história humana é o campo em que se desenrolam a epopeia e o drama de conquistas, avanços, dores e recuos que jamais deixarão de existir.

Embora eu reconheça o poder sedutor da Inteligência Artificial e seja um entusiasta da sua existência, preocupo-me com a sua capacidade de destruir empregos e com o imperativo ético da sua atuação. O Papa propõe atitudes concretas, ao alcance de todos, para minimizar os problemas: desacelerar a vida, desenvolver relações concretas com pessoas e, sobretudo, dar mais atenção à educação.

É urgente que pais, professores e todos os que, de alguma forma, têm poder de influenciar as pessoas respondam à necessidade de um novo tipo de educação. Entre suas funções importantes hoje, nenhuma é mais necessária que desenvolver a consciência analítica, precavida e crítica para impedir ou, ao menos, minimizar as chances de manipulação e de aceitação simples e imediata de discursos e narrativas sobre fatos, sem aderir a nada que não tenha sido examinado cuidadosamente.

Isaías Pascoal – Doutor em Ciências Sociais

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