Um bate-papo exclusivo com o oftalmologista Dr. Hernani Dias de Souza, que, mesmo após uma trajetória de sucesso em grandes centros, mantém suas raízes firmes na terra natal. E ainda, a projeção para a cidade, a partir de sua experiência vendo e acompanhando a sociedade ipuiunense, através de suas pacientes

JG: Dr. Hernani, sempre começamos perguntando: “… Cê é fio de quem”? É a nossa forma de buscar a identidade em cidades pequenas.
Dr. Hernani: Sou Hernani Dias de Souza, 48 anos. Sou da família do Roque da Farinheira. Em uma cidade pequena como a nossa, é fácil conhecer as pessoas e a história de cada um.
JG: Como foi sua infância aqui em Ipuiuna?
Dr. Hernani: Tivemos uma infância realmente saudável. Era de brincar no pasto, andar de trolinho na rua em obras, ir para o campo depois do almoço e só voltar ao anoitecer. Era brincar de pique-esconde pela cidade inteira. Cidade pequena é segura, a gente se conhece e se ajuda. Não havia o medo da rua, nem ficávamos presos em casa, na frente de uma tela. Eu tive infância de verdade.
JG: Essa convivência influenciou sua escolha profissional?
Dr. Hernani: A escolha profissional é muito pessoal. Mas no meu caso, o que me impulsionou à Medicina e à Oftalmologia foi um incidente: quando eu tinha 9 anos e meu irmão 5, acabei furando o olho dele. Naquele momento, decidi que faria Medicina e me tornaria oftalmologista. Eu não consegui curá-lo pela gravidade, mas a partir dali, segui firme nesse propósito e pude ajudar a evitar que casos parecidos tivessem o mesmo desfecho.
JG: O senhor se formou fora. Como foram os anos longe de Ipuiuna?
Dr. Hernani: Fiz vestibular em Maceió, Alagoas, onde consegui passar. Minha ideia, desde o início, era voltar para Ipuiuna ou para a região. Fiz a residência em Oftalmologia em Santos e me subespecializei em Retina na USP, em São Paulo, uma das mais concorridas. Comecei a fazer a transição entre Santos e São Paulo, mas logo montei meu primeiro consultório aqui, pois não queria perder minhas raízes e tinha o desejo de voltar de vez. Minha esposa, de Santa Rita de Caldas, foi um incentivo a mais.
JG: Quanto tempo o senhor ficou nesse “bate-volta” até se fixar aqui?
Dr. Hernani: Foram seis anos na faculdade em Maceió, e mais seis anos nesse trânsito entre São Paulo, Santos e Ipuiuna. Depois, comecei a trabalhar em Poços, mas o consultório em Ipuiuna foi o primeiro.
JG: Neste local de atendimento, o senhor está há seis anos?
Dr. Hernani: Como clínico geral, atuei por 22 anos na região. Como oftalmologista, comecei a atender aqui em 2008, então já são 17 anos. Tenho hospitais de olhos em Poços e Pouso Alegre, mas vir a Ipuiuna é sagrado. Venho atender o pessoal com mais calma, ver meus pais e a família. Não abro mão daqui; é mais fácil eu fechar o hospital do que deixar de vir a Ipuiuna.
JG: Esse amor por Ipuiuna é algo que une todos. O que essa terra tem de especial?
Dr. Hernani: É que nem filho, igualzinho parente. A gente até pode falar mal, apontar defeitos, mas não aceita que o outro faça o mesmo!
JG: Ao longo dos anos, com esse contato constante, o que mudou na cidade?
Dr. Hernani: Ipuiuna está seguindo o fluxo de muitas cidades pequenas. Elas não conseguem suprir a demanda por especialidades, trabalho e lazer. Estamos vendo um êxodo dos jovens, como aconteceu antes com o êxodo rural. A cidade evoluiu, claro, mas a população não aumentou como se esperava; pelo contrário, até declinou. O jeito mais rural se mantém. Isso pode prejudicar a cidade se não houver outras alternativas de trabalho e lazer, que hoje são poucas.
JG: Existe um ditado de que “ninguém é profeta em sua terra”, mas o senhor é um sucesso aqui. Como é essa aceitação como filho da terra?
Dr. Hernani: O que eu digo é o seguinte: nada derruba o bom trabalho. O conselho que dou é: nunca faça por dinheiro. Faça porque você gosta, e o dinheiro virá como consequência. Isso é clichê, mas é a pura verdade. E é preciso se especializar, sempre. Eu vou a congressos internacionais todos os anos. Temos que entregar um bom resultado para dar segurança e fazer o paciente voltar.
JG: Uma mensagem para Ipuiuna, do ipuiunense Hernani Dias de Souza.
Dr. Hernani: Sinto muito orgulho de fazer parte de Ipuiuna. Onde vou, digo que sou daqui. Meu título de eleitor é ipuiunense e não abro mão de votar aqui. É mais fácil fechar as minhas estruturas maiores para continuar aqui. Espero que Ipuiuna tenha um caminho cada vez melhor. Quem é de Ipuiuna precisa bater no peito e lutar pela nossa cidade. Que ela continue acolhedora, como sempre foi. Parabéns pelos 72 anos! Meu avô foi um dos fundadores da energia elétrica, e eu tenho raízes aqui, onde provavelmente serei enterrado. Se entendermos que somos nós que faremos algo pela nossa terra, ela sempre vai melhorar.




