ADMIRÁVEL E PREOCUPANTE MUNDO NOVO
O mundo atual vem passando por mudanças profundas e rápidas em todas as áreas, com repercussões profundas que atingem em cheio a sensibilidade e o comportamento das pessoas como nunca se viu em épocas passadas.
A história revela que as transformações são inevitáveis e constantes, mas elas demoravam mais tempo para ocorrer. A estabilidade da sociedade era uma característica dos tempos mais antigos, que a civilização moderna aos poucos solapou.
O avanço da “modernidade” imprimiu ritmos cada vez mais frenéticos às transformações. “Modernidade” aqui deve ser entendida como sociedades urbanas, industriais, capitalistas, com mobilidade social e volatilidade cultural (padrões éticos, religião, ideologias, sensibilidades).
Nos últimos 50 anos, no entanto, o processo foi tão profundo e rápido que até o que parecia sólido desmanchou no ar. Não sobrou pedra sobre pedra. Tipo de família, concepção e vivência da sexualidade, estabilidade do casamento, relações pessoais, papel da mulher, relacionamento com filhos, conectividade social, experiências pessoais e tecnologias mudaram profundamente.
O mundo dos anos anteriores à década de 80 são irreconhecíveis hoje e se tornaram um tempo para recordar. Vive nas memórias dos mais velhos. As mudanças têm ônus e bônus sempre. As gerações mais antigas sofrem com elas, pois foram criadas noutro tempo, mas as novas se adaptam facilmente. O psicanalista Erich Fromm, no livro denominado O medo à liberdade, descreve como os tempos modernos criaram a noção e a experiência do indivíduo com a possibilidade de vivenciar a liberdade, mas isso se fez à custa do enfraquecimento dos laços sociais e da integração à coletividade que abrigam o sentimento de pertencimento e identidade social. Sem eles, a sociedade corre o risco da anomia, conceito criado pelo sociólogo francês Émile Durkheim e que permite o surgimento de comportamentos patológicos.
A revolução tecnológica dos últimos 50 anos na informática, robótica, microeletrônica, engenharia genética, o aparecimento da internet e das redes sociais (processos mais recentes) criaram um tipo de homem que o historiador israelense, Yuval Harari, denominou de espécie Homo Deus, título de um instigante livro seu publicado em 2015. O desenvolvimento da inteligência artificial (IA) nos últimos tempos dão ao livro de Harari uma atualidade impressionante.
Ações que eram anteriormente atribuíveis às divindades são hoje realizadas pelos homens. A IA sintetiza a contradição entre as promessas e o abismo aberto sob os pés humanos. Rica em possibilidades que, no entanto, criam desafios sociais e existenciais, como o impacto no trabalho que, em alguns formatos, deixarão de existir, e na realização de atividades próprias do homem mais antigo (pesquisar, escrever textos, calcular, projetar), atualmente já substituíveis.
Concomitante ao desenvolvimento da IA, as redes sociais alcançaram enorme projeção e se tornaram sedutoras. A maior parte das pessoas é dependente dos smartphones. Sair sem eles causa vazio e ansiedade. Viraram parte do eu físico e psicológico. Nas ruas, praças, sofás e mesas todos estão com eles às mãos. Por um lado, a comunicação fácil e rápida, o entretenimento, a busca por informações instantâneas; por outro, o isolamento, a superexposição ao aparelho físico, a compulsão por aparecer socialmente e a dificuldade de foco e dar atenção a algo específico.
É a sociedade do espetáculo, tema do livro de Mário Vargas Llosa, nobel peruano de literatura, sujeita à liquefação, como diria Zygmunt Bauman, sob o império da instantaneidade. Tudo rodopia velozmente e se desmancha qual flor que fenece. Analogia deste momento: as fotos tiradas com smartphone que podem ser apagadas com um click; as fotos antigas eram tiradas num filme, reveladas e guardadas para a posteridade.
Esse conjunto de mudanças trouxe consequências variadas. Algumas delas são muito acentuadas no plano da saúde psicológica. Não há uma civilização tão frágil psicologicamente como a atual, dada a tristeza, suscetibilidade exagerada e depressão. O cansaço e a ansiedade são visíveis. A vida frenética não dá tempo para se demorar nas coisas, contemplar seja lá o que for, usufruir, pois a correria transforma tudo em fugacidade.
Vivemos numa sociedade que facilita o adoecimento. Os desafios colocados às lideranças políticas, sociais, religiosas, educacionais e familiares são inauditos. Mas aqui confio mais no papel de cada um, com a ajuda dos que estão por perto, sobretudo os pais, no sentido de parar, repensar a educação dos filhos e a autoeducação para não se perder no redemoinho que ameaça a existência sadia. Não se trata de condenar as mudanças, pois, além de inócuo, a maior parte de nós usufrui das suas promessas e facilidades. Mas o potencial destrutivo que elas embutem não pode ser minimizado.





