Alto custo de produção, relevo desfavorável à mecanização e forte concorrência externa minaram o poder da bataticultura. Produtores migram para morango, brócolis, mandioquinha-salsa, milho e soja, enquanto especialistas preveem a consolidação da agricultura familiar e agregação de valor.

Ipuiuna, no Sul de Minas Gerais, foi no passado reconhecida como a grande capital da batata. O engenheiro agrônomo Tobias Augusto explica que o município se destacou por muitos anos “graças à sua combinação única de fatores naturais, com altitude elevada, clima ameno e condições ambientais ideais para o cultivo”. Segundo ele, essas características permitiam “safras de alta qualidade e, em épocas de mercado instável, ofereciam ainda a vantagem de produzir com custos mais competitivos e em épocas diferentes”.

Contudo, o que era uma referência de força na produção perdeu seu poder diante de uma crise multifatorial. O produtor Elielton Júnior afirma que atualmente Ipuiuna não pode mais ser considerada a capital da batata, perdendo esse título para outras cidades da região. A região foi superada por potências como Vargem Grande do Sul (SP), Triângulo Mineiro e o Sul do Brasil.

As causas do esvaziamento da bataticultura
O declínio da bataticultura na região é atribuído a um conjunto complexo de obstáculos, envolvendo fatores agronômicos, de mercado e estruturais:
1. Altos custos e oscilação de mercado
A produção de batatas tem sido fortemente impactada pela queda do preço no mercado e o alto custo. José Daniel Rodrigues Ribeiro descreveu recentemente o cenário, ao portal G1, num especial sobre a bataticultura, como “péssimo”. “Hoje existe uma oferta grande de batatas, queda no consumo e o preço despencou, não cobre o custo de produção”, diz ele.
Elielton reforça que, devido ao alto valor dos insumos e o baixo retorno na colheita, “os produtores não conseguem mais fechar essa conta. Então preferem optar em ir reduzindo a área ou acabar desistindo da batata”.
A concorrência com o produto importado, usado na base de batatas congeladas, também afeta a demanda. José Daniel acrescenta: “Hoje nós estamos importando em torno de 300 mil toneladas de batata pré-frita congelada”.
2. Problemas de solo e relevo desfavorável
Um fator crucial no esvaziamento da cultura em Ipuiuna está relacionado ao manejo do solo e à topografia. Tobias Augusto destaca a questão agronômica: “A ausência de um manejo mais elaborado, sobretudo no que diz respeito à rotação de áreas e cuidados contínuos com o solo, aliada ao desgaste natural das terras cultivadas por longos períodos, provocou uma queda no plantio de batata pelas doenças de solo identificadas”.
O pesquisador Joaquim Gonçalves de Pádua, da Epamig, aponta a topografia como o principal motivo para a perda de status: “A maioria das nossas áreas no Sul de Minas tem relevo muito acentuado e não permite mecanizar a lavoura no ciclo todo”.
Em contraste, regiões concorrentes como o Triângulo Mineiro possuem planaltos mais regulares, permitindo a mecanização completa.
Elielton confirma que, enquanto as outras regiões são mais planas e favorecem o maquinário, o Sul de Minas possui “terrenos que não favorecem maquinários, principalmente os de grande porte”.
3. Escassez e custo da mão de obra
A dificuldade em mecanizar torna a mão de obra essencial, mas ela está escassa e cara. Elielton Júnior relata um “cenário muito difícil para encontrar pessoas qualificadas para estar no campo”.
Ele exemplifica a crise mencionando que “o cara do beneficiador, precisando de cargas, não tem gente, não consegue colher, porque não tem colaboradores dispostos, disponíveis. Assim, não tem a quantidade de mão de obra que precisa”.
4. O impacto da crise hídrica
A batata exige muita água. Joaquim Pádua cita a escassez hídrica, iniciada a partir de 2014, como um fator que limitou a competitividade da região, pois “o Lago de Furnas, que é o grande fornecedor de água naquele eixo, não podia retirar água”.
Projeções e o novo capítulo de Ipuiuna
Diante da migração e do alto risco, Tobias Augusto observa que o cultivo da batata “deixou de ser uma opção tão atraente, abrindo espaço para a diversificação”.
1. O futuro da batata
A tendência, na opinião dos especialistas da Epamig, é que a produção de batata “continue migrando para outras regiões”, e que “os pequenos produtores percam mais espaço para as grandes lavouras, com alta tecnologia e mecanização completa”.
Tobias confirma esse pensamento, explicando que a batata deve migrar por causa da “topografia acidentada, o custo logístico e o maior risco operacional para a cultura dentro da região”.
2. A diversificação e o novo perfil agrícola
Ipuiuna está construindo um novo perfil. Tobias nota que “as hortaliças do grupo das brássicas, como repolho e brócolis, ganharam força, assim como o morango, que encontrou na região um ambiente propício e um mercado mais estável”.
Elielton concorda que Ipuiuna “poderia ganhar um novo título pela questão do aumento da produção de brócolis e morango, até soja e milho”.


3. Consolidação da agricultura familiar
O futuro mais seguro e sustentável para o município passa pelo menor risco e maior controle. Tobias projeta que “Ipuiuna tende a se consolidar como uma cidade onde a agricultura familiar será predominante”.
Esses novos cultivos, como morango, brócolis e mandioquinha salsa, “desenvolvidos em áreas menores, permitem maior controle, menor risco e melhores resultados para o produtor”.

4. Estratégia logística e agregação de valor
Para potencializar essa nova fase, Tobias aponta a necessidade de “valorizar a agricultura familiar, ajudando os produtores a melhorar suas vendas, criando um tratamento logístico para este fim”.
Ele lembra a localização privilegiada de Ipuiuna: “Estamos a 250 km de São Paulo, 300 de BH e 300 do RJ aproximadamente”.
Elielton sugere uma saída promissora: investir em agroindústria local, como “fábricas de processamento de alimentos — morango, mandioquinha, brócolis, batata. É algo que está crescendo muito, a parte de produtos preparados para o consumidor final”.
Ele observa que já há investimentos em embalagens de brócolis e frituras no município.
Aliada a essas saídas, a modernização tecnológica continua sendo fundamental, com avanços em sementes, formulações de adubos e maquinários mais modernos, que permitem ao produtor reduzir a área de plantio, mas manter uma produção final superior.
A história de Ipuiuna é como uma migração forçada: a batata, exigente e de alto risco, encontra terreno mais fértil em outras paragens, mas o potencial da região se redireciona para culturas adaptáveis e de alto valor, garantindo um caminho “mais sustentável e seguro” para o produtor familiar.
O estímulo público: Ipuiúna investe na agricultura familiar
Diante do desafio de manter o produtor no campo após o declínio da bataticultura, a Prefeitura de Ipuiúna e parceiros estratégicos têm concentrado esforços em iniciativas diretas para fortalecer a agricultura familiar e a diversificação de culturas (como morango, brócolis e mandioquinha-salsa), projetando um futuro mais sustentável para o agronegócio local.
As ações da Secretaria Municipal de Agricultura de Ipuiúna nos últimos anos visam reduzir os custos operacionais e burocráticos, incentivando a permanência das famílias rurais na terra:
1. Projeto Agro Plantio:
Liderada pela Secretaria Municipal de Agricultura, a iniciativa disponibiliza gratuitamente o serviço de trator e tratorista para o preparo do solo em áreas de até um alqueire. Este apoio é um “incentivo para que o produtor continue no campo, com condições de produzir e gerar renda, pois o maquinário e o operador são fornecidos pela Prefeitura sem nenhum custo”, conforme explicou a secretária de Agricultura, Leda Maria. O programa atende especificamente os pequenos produtores do município.

2. Suporte técnico e análise de solo:
O poder público promove a agricultura por meio de análise de solo gratuita para agricultores e pecuaristas.
3. Incentivo à comercialização:
A Prefeitura incentiva os produtores e agronegócios alimentícios a integrar o Consórcio Público para Gestão Integrada (CGPI). O objetivo é implementar o Selo de Inspeção Municipal (SIM) em Ipuiúna e o selo do CGPI, que permitirá aos municípios consorciados — incluindo Albertina, Andradas, Caldas, Divisa Nova, Ibitiura de Minas e Santa Rita de Caldas — comercializar produtos entre si.
Em um encontro promovido no município, o objetivo foi desmistificar a presença dos técnicos do SIM, que procuram auxiliar e não punir os produtores.
O apoio essencial da EMATER no campo
A Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) teve atendimentos recentes disponibilizados a Ipuiúna, mesmo que não diariamente, como se pretende, e tem sido fundamental para fornecer orientações e conhecimento técnico aos pequenos produtores.
Sua presença no município é marcada por parcerias diretas com a Secretaria de Agricultura, como no projeto desenvolvido na zona rural, que envolveu alunos, professores e a comunidade escolar.
A secretária Leda Maria afirmou que o projeto busca “promover a fixação das famílias no campo” e formar “cidadãos conscientes sobre a importância de uma alimentação saudável e produzida em casa”. Ela ressaltou que trabalhar com as crianças fortalece o vínculo com o meio rural e abre “possibilidades de renda futura para as famílias”.
O projeto contou com a participação de um representante da Emater, Denilson Basso, e já está sendo expandido para outras unidades escolares.
Em suma, enquanto os altos custos e a mão de obra escassa desafiam a sobrevivência dos pequenos produtores, a estratégia do poder público em Ipuiúna se concentra em subsidiar o acesso a maquinário, oferecer assistência técnica especializada (Emater) e abrir novos canais de mercado e comercialização regulamentada (SIM/Consórcio), garantindo que o novo foco em frutos, hortaliças e mandioquinha-salsa seja mais sustentável e seguro.




